Dias felizes

Tenho vivido dias incríveis. Um dia estou na produção de um evento com Chico e Caetano nos meus ombros, no outro entardeço em uma maravilhosa praia em Saquarema. Não dá para explicar para todo mundo. Em 11 meses tenho muito a contar. Tudo que o Rio me deu é muito mais do que jamais pensei em tão pouco tempo. E em todo entardecer na praia eu rezo baixinho para conseguir aproveitar com sabedoria e alegria o tempo da minha jornada aqui. Sempre ciente que ela pode terminar na próxima curva ou nosso próximo pôr do Sol.  

Quem vem com tudo não cansa

Resumindo o tempo ausente:
Meu notebook pifou e tive que me endividar em parcelas comprando outro. O destino apertou o modo força total no desapego ao qual me propus desde quando saí de Curita. Nesse meio tempo várias entrevistas e muitas propostas indecentes. Entre freelas felhas da p… tive que conviver com gente que tá de saco cheio do que faz, pilantras e nós cegos.
Mas aí tive a sorte de enviar o currículo para o lugar certo e passar na seleção.

O ano virou e to empregada, feliz da vida ajudando a espalhar poesia por aí. A minha inspiração voltou e continuo desbravando esse Rio de Janeiro. Cada volta é  um recomeço!  (salve o Zezé)

No Rio eu descobri o Nordeste

Parece que me perdi na geografia mas não é isso. Grande parte dos meus novos amigos daqui são nordestinos.  Tem baianos, pernambucanos,  e tem nortistas também. Coincidiu que antes de me mudar para cá eu passei uma semana em Salvador. Foi isso, um click. Um Brasil novo se descortinou para mim. Um Brasil colorido, cheio de sabores, alegre, de gente orgulhosa de suas origens que larga tudo para vir estudar, mas quer voltar para casa um dia. Terra de possibilidades para mim também, já decidi, moro no nordeste por um tempo.

Semana passada fui em duas festas juninas, já percebi que tem muitas por aqui. Acho que os migrantes trouxeram a influência dos seus costumes. Eu já sei como São João é data forte para nordestinos.  Foi muito legal na Quinta da boa Vista, de graça, showzão da Elba, Gil e Caetano. Tava um tumulto gigante na entrada, confusão mesmo, quase desisti. Bom que fiquei porque curti e forroziei bastante. Adoro evento assim ao ar livre. Fora isso conheci São Cristovão, coisa diferente da bolha da zona Sul. Para variar achei tudo um barato.

Como um filme antigo

Estou procurando trabalho e qualquer quebra galho que renda $ me interessa. Por isso resolvi voltar aos tempos da faculdade quando a minha amiga Renata trabalhava em uma agência de propaganda e conseguia uma ponta de figurante para todos os amigos. Era um dinheiro mole só precisa ter tempo disponível.

Então fui até uma agência no centro para fazer meu cadastro. Eu fico tão orgulhosa em procurar um endereço e descobrir bem fácil sozinha! Foi rapidinho, tirei umas fotos, paguei uma taxa (simm tem que pagar) e estava rodando a esmo pela Presidente Vargas. Resolvi dar uma passadinha no Centro Cultural do Banco do Brasil, que eu já conhecia de quando passei férias aqui em março. Está tendo uma mostra de filmes do Hitchcock e resolvi ficar para as sessão das 17 horas, já que era baratinho R$6,00.

Como é de praxe no Rio fiz amigos na fila, uma garota mineira me deu dicas das mostras de filmes e espetáculos, me antecipou uma coisa que eu constataria mais tarde: na capital fluminense o público comparece em massa em eventos culturais. Por isso chegar bem antes para garantir lugar e ingresso é primordial.

O filme era O Sabotador (1942). Achei muito divertido, gargalhei alto. Achei menos sombrio do que a impressão de  Hitchcock que eu tinha na memória. O motivo de tantas risadas? A inocência do filme antigo. E não são só nos efeitos especiais, que claro, hoje, beiram ao ridículo. A inocência também nas intenções dos personagens e diálogos, mas nem por isso menos eficaz na diversão e na transmissão da mensagem. Esse tipo de coisa que faz de obras assim clássicas e que enchem as salas do CCBB em cinco sessões por dia.

Pensei que esse também era parte do charme do Rio de Janeiro. A terra consagrada pela malandragem me dá sempre essa sensação de inocência nas relações e simplicidade no viver. Como um filme antigo. Teria eu descoberto um dos segredos da cidade maravilhosa para seduzir mineiros, nordestinos, gringos e paranaenses?

Desbravar é preciso

Supermercados, ruas, lojas, sapateiros. Estou me naturalizando com meu novo mundo: Copacabana. Tem uma biblioteca na minha rua, ótima notícia. Na verdade achei uma judiação. Pela pouco informação visual na entrada, o que eu li é que era uma biblioteca infantil, eu poderia ao menos  pedir informações sobre uma para adultos, então entrei. Olhando pelas prateleiras vi Milton Hatoum, Marcelino Freire, que legal tem livros para adultos, pensei. Acabei me entretendo com um livro de contos da Virgínia Wolf mas por pouco tempo. A bibliotecária falava alto e sem parar, coisa eu desde criancinha sei que não se faz em um lugar deste. Mudei de sala e percebi que a luz no ambiente também era péssima, quem projetou isso meu Deus? Percebendo o meu desconforto a funcionária me ofereceu um lugar mais calmo para minha leitura na andar superior. Acabei não aceitando porque tinha hora marcada para virem consertar o aquecedor em casa. Não tive como não pensar que mal aproveitado todo aquele espaço. Primeiro quantas pessoas devem passar por ali e não saberem do que se trata. Depois aquela luz ruim, funcionários que não se importam muito…


Dez dias

Moro há exatamente dez dias  no Rio de Janeiro. Neste tempo eu procurei um quarto, enviei currículos, peguei sol na praia, corri na orla, tomei um porre, conheci uma boate gay em Ipanema, e bati perna pelo Saara. Não necessariamente nesta ordem. Estou provisoriamente em um ap em Copa sozinha, onde mando mais currículos através de uma internet de uma vizinha bacana que deixou sua rede desprotegida (valeu Eliete em qualquer lugar que em que você esteja), ouço música e sento na janela pensando na minha vida.

Bom há um mês eu pedi demissão de uma vida. Trabalho estável em Curitiba, amigos verdadeiros para happys intermináveis, e uma tremenda insatisfação que eu não conseguia camuflar.

Então vim para cá com uma curta grana na poupança, muita fé e uma boa amiga carioca para contar.

Por enquanto tá sobrando entusiasmo e planos. Pelo menos enquanto a grana durar. Mas a verdade é que esta virada me deixou muito orgulhosa de mim mesma. O resto se vai dar certo ou não já são outros quinhentos.